quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dois pesos

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Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos.
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Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

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Por Maria Rita Khel*
*Matéria originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida do site O Escrevinhador
Veja o texto completo aqui . Veja mesmo.

P.S.: A autora foi despedida do jornal por causa dessa reportagem...
P.S.2: Go Dilma \o/

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Liberdade de Imprensa (Veja bem)

Nas savanas africanas, uma furiosa manada de búfalos corria em busca de água e comida. Um pequeno e serelepe filhote se distraiu com uma borboleta vermelha e acabou se perdendo do bando(é difícil encontrar sinônimos de coletivos). 

E quando percebeu que estava longe dos outros, o filhote se desesperou. Correu para lá e para cá e nada de encontrar os seus. Adentrou a floresta mais e mais e ficou ainda mais longe. Um pombo (na África?!) observava a situação de longe. Foi voando e se aproximando aos poucos (você sabe como pombos são desconfiados) e falou com o pequeno búfalo: -O que aconteceu, amigo?- o filhote respondeu choramingando:

-Me perdi de minha família! - o pombo, empertigando-se todo, respondeu: -Não se preoucupe, pequenino, pois não sabe que eu sou um pombo correio? E não sabe também que pombos correio são os mensageiros da verdade e saem por toda savana informando e esclarecendo a população?

-Não tema- continuou o pombo- aguarde um pouco aqui, coma essa suculenta gramínea, que vou me informar onde está sua família. Búfalos, não? Só pra ter certeza.

E ao dizer isso, saiu voando ligeiro e logo sumiu de vista. E depois de uns minutos, o pombo voltou com uma cara bem satisfeita, satisfeita demais até, e lá do alto gritou pro fihote de búfalo:

-Encontrei, encontrei! Me siga!- Sem perder tempo o búfalo saiu ligeiro atrás do pombo correio, entrou em uma mata espessa, achou uma trilha e quando chegou em frente a um riacho, parou meio assustado - Meus pais me disseram pra não atravessar o rio sozinho! Está cheio de jacarés!

-Bobagem- disse o pombo- eu mesmo tomo banho nesse rio e lhe garanto que não tem perigo!

Ao ouvir isso, o búfalo deu um salto na água, mas nunca mais saiu de lá, pois, escondido atrás de um tronco, havia um enorme jacaré que engoliu o filhote com uma abocanhada só.
MORAL: Não acredite em pombos correio. Ou acredite, você escolhe.
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Fabiano Che

domingo, 12 de setembro de 2010

Tsc tsc

Bispo pede que fiéis não votem em Dilma por ela ser pró-aborto.

No que será que esses católicos retrógrados estão pensando? Será que eles não sabem que a maioria das mulheres que recorrem ao aborto o fazem por não terem condições financeiras de ter um filho? Será que querem ainda mais crianças revirando o lixo em busca de comida? Será que não entendem que a mulher é dona de seu corpo e tem o direito de fazer o que quiser com ele? Será que querem mais violência, pois filhos indesejados tem mais chance de ir para o mundo das drogas?

Devíamos matar também as criancinhas pobres...
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  Fabiano Che

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Fantasma do futuro corporativo

 Um homem sai de seu apartamento. Está chovendo. Ele esqueceu seu guarda chuva. Chega completamente encharcado no ponto de ônibus. Suas botas estão cheias de água.Ao tirá-las ele escorrega e cai em uma poça de água suja. As pessoas olham pra ele com um ar de desprezo, mas ele não se importa pois,  na noite passada, viu o fantasma do futuro.

O Espírito disse pra sempre que puder tirar suas botas, principalmente quando estiverem cheias d'agua. Também disse que se ele saísse em uma longa viagem de negócios, ao voltar perceberia que seus filhos já estão crescidos e que ele nunca fez sua mulher gemer.

 E disse também: — As pessoas o deixam nervoso, você acha que o mundo está acabando e todos agem como se fossem de plástico, são tão sarcásticos, e sua comida está tão fria e você precisa esquentá-la.

Talvez você deva beber menos café e nunca mais  assistir 10 horas de notícas. talvez você deva beijar alguém legal ou andar de biccleta ou os dois. Talvez você devesse cortar seu próprio cabelo. É de graça e ele sempre cresce. Até quando você está morto.

Pessoas são só pessoas e não deveriam te deixar nervoso. Se chegar mais perto verão que elas não são de plástico. O mundo é eterno, saia sem guarda chuvas, tire seus sapatos, por que pessoas são só pessoas. Pessoas são só pessoas. Como você.
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Fabiano Che

P.S.-  Discaradamente copiado Baseado na música Ghost of Corporate Future de Regina Spektor...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Caretas não-pintados

O que diabos há com minha geração?

Minha geração chorou com o que aconteceu na França em 1998 e sorriu com o que aconteceu na Coréia do Sul e no Japão em 2002.

Minha geração assistiu a Os Cavaleiros do Zodíaco, Yu Yu Hakusho, Dragon Ball Z e Pokémon.

Minha geração domina as mídias sociais de hoje em dia.

Minha geração passava Mertiolate e água oxigenada nas feridas enquanto a mãe dizia “Não vai doer. Eu assopro.”.

Bons tempos…

Mas que merda de geração inerte é a minha geração! Que bando de caretas moralistas. A geração Coca-Cola parece que está voltando. Ninguém mais quer lutar por nada. Nenhuma luta pelos direitos civis, nenhuma luta por um mundo melhor, nenhuma coisa prática.

Minha geração é careta. É abençoada pelo saber, pela aspiração ao conhecimento, pela informação. Minha geração vive atrás de um computador gritando #FORASARNEY como se isso resolvesse alguma coisa. Minha geração é corajosa, pois a Internet proporciona isso. Ela fica dizendo, repetindo, repisando que o mundo tem que mudar e não faz porra nenhuma. Pelo contrário, quando voltam ao mundo real, fazem o inverso do que escrevem por aí.

Depois de uma motivação descomunal com esse blog que surgiu no ano passado, na qual colaborei pra tentar mudar alguma coisa (principalmente percepção), confesso que me entreguei aos lobos. Desisti de fazer algo teórico e abandonei as ações práticas. Até o Dr. Fabiano Che me alertou sobre isso. Disse na ocasião “...blá-blá-blá, não há mais o sentimento daqueles de uma geração passada, na qual pintavam seus rostos e foram capazes de derrubar um Presidente da República [adaptado]”. Minha resposta a ele foi carregada de cumplicidade para com minha geração.

Até bem pouco tempo atrás, poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?

Mas há alguns dias assisto ao programa Sem Censura e a atriz Lúcia Veríssimo toca justamente nesse assunto. Ela disse algo semelhante numa entrevista à Istoé Gente: “Tenho 51 anos e minha geração lutou por mudanças políticas, sociais. Essa de agora me assusta. Converso com o pessoal que faz tevê, que é um ambiente supostamente mais aberto, e fico chocada. São jovens caretas e reacionários.”

Sinto-me envergonhado por estar num grupo de desinteressados que só reclamam e não fazem nada. É óbvio que existem suas exceções. Eu era uma.

Se a inércia fosse o maior de nossos problemas, ótimo!, ainda estaríamos lucrando. Sério. Mas o problema é o moralismo, a caretice. Em relação aos padrões comportamentais, em vez de progredirmos, estamos regredindo, quando a estagnação ainda seria uma boa.

Viu a Argentina? Acabaram de legalizar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Que progresso! Que ordem, irmãos! O primeiro da América Latina e o décimo no mundo. Enquanto isso, minha geração xinga muito no Twitter. “Só podiam ser argentinos! Blá-blá-blá... Adão e Ivo, blá-blá, plugue e tomada!”

É isso aí, Brasil! Estamos no caminho correto quando o assunto é manter o padrão em nossa história. O último país a abolir a escravidão acha inadmissível ver duas pessoas do mesmo sexo usufruindo dos direitos de um casal. Em 13 de maio de 1888, os TTs mundiais deviam estar repletos de indignação com a Lei Áurea. É brincadeira, né? É quase a mesma coisa. Um dia perceberão isso (ou não).

Sabe o que aconteceria se os gays pudessem se casar? Ah, muita coisa. Guerra atômica, apocalipse, famílias destruídas, derretimento das calotas polares e, acima de tudo, gays de casariam.

Minha geração é idiota. Minha geração é besta.

Até Eliza Samúdio não escapou. “Aquela puta maria-chuteira merecia morrer.” Não fode, tá? A mulher foi brutalmente assassinada, gente, então porque cargas-d'água insistem em querer difamá-la, expondo seu passado como atriz pornô? E não me venha com “pára o mundo que eu quero descer”, pois é você mesmo que tá ajudando a bagunçar nossa casa.

Minha geração acha que tem opinião, mas não percebe o quão manipulados são. É muito inteligente e criativa, contudo patética.