domingo, 18 de outubro de 2009

A felicidade está no caminho

— Oi, Deus, você está aí?
— Claro, sempre.
— Então me diga, o que é a felicidade, afinal?
— Seja mais específico.
— Sabe, estou quase sempre insatisfeito. Mesmo conseguindo as coisas que desejo ainda não consigo me declarar feliz… Verdadeiramente feliz.
— Siga-me.
— Aonde vamos?
— Vou te mostrar a felicidade.
Após três quartos de hora caminhando, ambos chegam ao cume de uma montanha.
— Falta muito?
— Chegamos!
— Sério? Mas cadê a felicidade que disseste que me mostraria?
— Está sob seus pés.
— O quê? Essa flor amarela?! Ela me dá algum tipo de poder ou algo assim?!
— Não, do lado da flor.
— Ahhh… O que há do lado da flor?!
— Essa pedra.
— Essa pedra?! Ela é que vai me fazer ter lasers pelos olhos?
— Por favor, chega de falar bobagem! Essa pedra é a felicidade que te prometi mostrar.
— O quê? Mas o que tem de especial nessa maldita pedra?
— Nada! É apenas uma pedra como qualquer outra.
— Caralho! Nós andamos por mais de 45 minutos, subindo essa porcaria de montanha, furei meu pé num espinho, com uma forte dor no nervo ciático, num sol quente da porra pra olhar uma pedra como outra qualquer?
— Sim.
— Sim? Mas que frieza…
— O que você esperava?
— A verdadeira felicidade.
— Ah, tá, mas o que você viu pelo caminho?
— Bem, vi pássaros gorjeando canções serenas, lindas e perfumadas flores, a água da cachoeira sendo derramada, formando uma chuva fina, o nascer do sol reverberando nossos corpos — ou pelo menos o meu —, e muita coisa maravilhosa, sabe!? Caminhei com tanta ansiedade para ver o que era a felicidade.
— E o que você sentiu enquanto subia e via tudo isso?
— Sentia-me…
— …enquanto ansioso para ver a felicidade…
— Sentia-me muito bem.
— Muito bem quanto e como.
— Verdadeiramente bem… e feliz.
— …
— Porra, então é isso!? Agora eu entendi. A felicidade verdadeira está no meio e não no fim, não é isso? A felicidade verdadeira está no caminho, no trajeto rumo ao meu objetivo. O objetivo final não passa de uma simples pedra no cume de uma montanha, pois a verdadeira felicidade está em chegar lá, passar por todas as situações, todas as sensações — boas ou ruins.
— Sabia que você entenderia.
— Claro que sabia, mas… Como aplicar isso em termos práticos?
— Sonhe! Sonhe sempre. Nunca deixe de sonhar nem deixe de aspirar a alguma coisa. Sempre queira alcançar seus objetivos e, quando alcançá-los, busque outros, pois enquanto estiver caminhando, sentirá sempre a verdadeira felicidade.
— Porra, então… Agora vejo como eu era feliz enquanto passava pelas etapas que me levou aonde estou. Agora que cheguei onde há tempos queria chegar, tudo parece tão banal... apesar de eu me sentir apenas feliz. Preciso de novos objetivos, certo? Não posso ficar estagnado. Quero sentir a verdadeira felicidade de novo. Deixe-me ver, qual o meu objetivo agora? Tentar fazer com que as pessoas absorvam um pouco do que pude constatar com minha experiência sensível!?
— Não, você nunca encontraria a pedra, e ficar andando sem nunca chegar ao cume te faria infeliz.
— Já sei! Vou continuar a escrever meu livro e publicá-lo. A emoção de ver o desenrolar da história com Glauber — ou Ivo — e Andréia me faria verdadeiramente feliz. Pode até ser que eu me sinta decepcionado quando vender milhões de exemplares, mas e daí?! Vou clicar em publicar esse texto e caminhar um pouco.

“Poltronas desconfortáveis e estradas esburacadas tentaram chamar sua atenção para os riscos que estaria prestes a correr. Quase que lhe avisavam debalde sobre o quão perigoso era esse lugar. Só que, às vezes, esquece-se dos riscos quando se tem um objetivo traçado; às vezes, esquece-se dos riscos quando se está envolto num forte sentimento. Ivo se encontra nesse duplo esquecimento.”

— Nunca pare de ter objetivos na vida.
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Giuliano Marley

domingo, 11 de outubro de 2009

Certificado Parlapatão Nº 50

Há exatos 40 domingos o Atestado Pedante fora criado por dois supostos fanfarrões, Fabiano Che e Giuliano Marley ( até hoje me pergunto o porquê desse sobrenome, seria por causa do cachorro?), com o objetivo de divulgar suas indagações e questionamentos ( a redundância é uma arte).
Tentando fugir do lugar comum blog-pedante-filosófico, vários temas foram abordados, de um papo com Deus à alma de ouro de tolo, da raposa no galinheiro livre à necrofilia da arte. Tudo isso com o intuito de mudar o mundo ou pelo menos inspirar uma criança.
Enfim, depois de 10 meses, chegamos ao post de nº 50. Será que alcançaremos o nosso objetivo de sacudir as pessoas para que acordem e saiam da prisão das certezas e verdades intuídas, ou pelo menos chegarmos ao centésimo post? Ou desistiremos de nossos ideais para nos adaptar ao mundo cruel? Não percam os próximos episódios...
P.S.: Acho que não escapamos do lugar comum...
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Fabiano Che (ditado pelo espírito A Direção)

domingo, 27 de setembro de 2009

Desabafos de uma mente exausta…

Cansei! Estou exausto. Meus dedos, joelhos, cotovelos e tornozelos doem. Meu nervo ciático do lado esquerdo vive latejando e recebi uma pancada no lado direito das costas ontem… Mas esse é o tipo de cansaço que eu postaria num blog pessoal.

CANSEI DESSE MUNDO IMBECIL!
[…]
Cansei de jogar o lixo na lixeira e separar toda a porcaria para a reciclagem;
Cansei de ser gentil e tentar não magoar os outros mostrando que eles são estúpidos;
Cansei de não comer cadáveres de animais fritos, assados, cozidos, defumados, etc;
Cansei de ceder o banco do ônibus pra idosos, grávidas, deficientes e pessoas com crianças de colo;
Cansei sorrir após ser ofendido e dizer/pensar "eu não me ofendo com nada";
Cansei de dar $10 de esmola e não receber um maldito obrigado;
Cansei de não ser machista quando na verdade as mulheres querem mais é levar tapa na cara e passar o dia cozinhando e limpando a casa;
Cansei de odiar os racistas, pois está tudo perdido! Todos são racistas, inclusive as vítimas de injúria racial;
Cansei de odiar a homofobia. No mesmo instante estão todos se ofendendo com viados, bichas, sapatões;
Cansei de ser o motorista da rodada;
Cansei de cuidar de minha saúde;
Cansei de não matar as baratas, aranhas e ratos que invandem meus pacotes de bolacha;
Cansei de dizer por favor, com licença, obrigado e desculpe;
Cansei de ouvir as pessoas reclamando da vida e dizendo que não vai dar certo ou que não vou conseguir;
Cansei de vê-los tentar viver minha vida;
Cansei de vê-los me subestimando, me julgando por minha aparência rude;
Cansei de ter que fingir concordar com eles só pra calarem a maldita boca;
Cansei de ser tolerante;
Cansei de ser paciente;
Cansei de me comportar como querem que me comporte só pra vê-los quietos;
Cansei de não ter voz nas decisões;
Cansei de ser desrespeitado;
Cansei de tentar fazer do mundo um lugar melhor.
[…]
Cansei desse mundo imbecil… mas ainda não desisti dele… ainda não.
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Giuliano Marley

Idade Média - reloaded




Será que eles vendem pedaços da cruz de Jesus?
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Fabiano Che

sábado, 19 de setembro de 2009

O homem e sua pá

Há muito tempo, sua pá era sua única companhia. Seu trabalho era árduo, mas muito simples. Só tinha que colocar a areia, que caía da esteira, novamente na esteira. Não tinha que resolver problemas nem se preocupar com mais nada. Era só a pá, ele e Deus (ou pelo menos, ele e a pá).
E assim seguiam os dias. O ontem era igual ao hoje e o amanhã não seria diferente. Afinal, quem precisa de novidades? Nada de aborrecimentos, choros ou risos. Raramente alguém passava por seu local de trabalho. E mais raramente ainda, queriam saber o que ele achava das coisas.
Num desses dias incomuns, um sujeito estranho lhe perguntou o que sabia sobre a economia do país. Ao ver a indagação nos seus olhos, o cara estranho perguntou sobre a política de seu estado. Novamente a resposta foi uma tremenda expressão de dúvida. Depois sobre as novidades da cidade, religião, e por último sobre a empresa que trabalhava. Como a resposta era sempre a mesma, o estranho cansou e foi-se embora.
Que sujeito idiota, pensou o homem. Como ele poderia imaginar que eu saberia todas aquelas coisas? Se a única coisa que faço é trabalhar com essa maldita pá, dia e noite!?
E, ao dizer isso, tomado por súbito esclarecimento, o homem jogou a pá para longe de si e foi conhecer o mundo.
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Fabiano Che