quinta-feira, 11 de junho de 2009

(Chanfrando) O Pai, o Filho e o Burro

Numa velha fazenda, situada não importa onde, vivia, não importa quando, um fazendeiro muito velho e seu filho manco. Era uma fazenda paupérrima que tinha apenas uma pequena horta de onde tiravam o dinheiro para se sustentarem. Não tinha nenhum animal além de um velho burro de carga.
Todo mês o fazendeiro pegava seu ínfimo dinheiro e partia rumo à cidade a fim de comprar víveres. Quanto a seu filho, esse nunca saiu da roça e estava muito a fim de conhecer a zona urbana.
Numa dessas saídas do velho, seu filho lhe pede:
— Meu pai, posso ir contigo à cidade dessa vez?
— Acho melhor não, meu filho — responde o pai.
— Mas porque não?
— Por que a cidade é um lugar desprezível, onde a humanidade é desumana. Eles vivem pra falar mal dos outros e, quando virem um sujeito coxo como você, farão comentários maldosos, comentários esses que te magoariam.
— Exagero!
— Quem me dera eu estivesse exagerando.
— Façamos o seguinte, então, meu pai. Eu monto no burro quando entrarmos na cidade. Dessa maneira, ninguém verá, nem ao menos falará mal de minha deficiência física.
O fazendeiro gostou da idéia e resolveu levar o rapaz dessa vez. Já estava na hora de ele conhecer o mundo.
Ambos se aprontaram e partiram com o burro carregado de verduras que pretendiam vender na feira. A caminhada foi longa e árdua, mas finalmente se encontraram na porta da cidade. O fazendeiro diz:
— Pronto, filho, chegamos. Suba no lombo do burro para que possamos entrar sem ninguém criticar.
Dito e feito. O rapaz monta no animal enquanto seu pai vai seguindo à frente, com os próprios pés, guiando-o. Enquanto adentravam a urbe, olhares acusadores observavam-nos. Eram dos cidadãos, que comentavam:
— Olha só que absurdo! O rapaz, vendendo saúde, vai em cima do burro enquanto deixa o pobre e fraco velho andando. Quanta impiedade!
Pai e filho param e resolvem inverter suas posições no intuito de cessar os comentários, apesar do que fora combinado antes. O velho sobe nas costas do animal enquanto o rapaz vai andando na frente.
Logo adiante, mais olhares acusadores e mais críticas:
— Me abismo vendo uma coisa dessas. O homem vai na boa em cima do burro e deixa o filho aleijado andando no maior sofrimento.
Os dois param novamente e tentam arquitetar um novo plano de caminhada sem que ninguém fale coisa nenhuma. A solução que encontraram foi a seguinte: ambos montariam no burro e ninguém reclamaria da velhice e da deficiência de pessoa alguma. Parecia um bom plano. Assim fizeram e continuaram o trajeto. Só que o animal mal agüentava uma pessoa, veja lá duas. O pobre burro sofria enquanto carregava pai e filho. Pra variar, pessoas comentavam:
— Olha só pra esses dois preguiçosos sem misericórdia. Não querem nem saber de andar e maltratam o pobre animal dessa maneira.
Pai e filho já estavam se cansando de tudo aquilo e tomam uma decisão inusitada. Colocam o burro em suas costas e carregam-no enquanto prosseguem. Evidentemente, pessoas falam mal:
— Mas que estupidez! Os animais foram feitos para serem montados e não para montar. É cada uma que se vê.
Não havia mais opções. Não tinha mais como esconder das pessoas as coisas que essas julgam e condenam. Foi o jeito apelar à honrosa tranqüilidade… Pai e filho prosseguem andando e puxando o burro, ignorando, finalmente, o que todos tinham a dizer.
Eles chegam à feira, fazem seus negócios e vão embora sentindo um nojo profundo pelas pessoas da civilização. O rapaz prometeu nunca mais voltar; o velho pensou na possibilidade de não sair mais da sua fazenda. Não queria mais sentir aquele desgosto no seu pouco tempo de vida restante…
PS.: esse conto é uma adaptação baseada na fábula “O homem, seu filho e o burro” (http://www.metaforas.com.br/infantis/ohomemeoburro.htm) que tem como moral “Quem quer agradar todo mundo no fim não agrada ninguém”. Essa adaptação não tem moral (quem sou eu pra dar uma lição de moral!?), mas apenas exibe um comportamento demasiadamente hipócrita. Com exceção de nós, todos falam mal dos outros.
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Giuliano Marley

5 comentários:

Jessica disse...

cara, gostei muito.. e é verdade, as pessoas falam muito mal dos outros.. chega dar desgosoto

Vanessa Gomes. disse...

Menino, eu já li essa fábula. E já ia dier que me lembrava algo...

Muito bom o texto, e concordo plenamente. Embora hipócrita serei se eu disse que não falo mal de ninguém. :P

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Vê, eu gostei pra caramba do texto que vc me mandou um link. Acabei de colocar um novo post no meu blog, e coloquei uma citação tua. Passa lá!

=)

Krids CineTv disse...

Tambem ja havia visto esta fábula... Muito boa ela!

=D

http://krids-cinetv.blogspot.com

william disse...

Quando a "adaptação" satisfaz, pouco me importa a fonte.
Sem ser hipócrita.

Fabiano Che disse...

Texto sem moral? Fala sério